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Ninguém imaginava que um simples hidratante labial poderia virar febre nacional. Mas a Carmed conseguiu.


O produto em si não é novo. Hidratantes labiais existem há décadas e sempre foram tratados como itens funcionais dentro das farmácias: produtos de necessidade, comprados sem grande envolvimento emocional e quase sempre escolhidos por hábito.

Ainda assim, em poucos anos, a Carmed conseguiu transformar esse item banal em objeto de desejo, coleção e euforia nas redes sociais.


O que chama atenção não é apenas a visibilidade da marca. É a velocidade com que ela aconteceu.

Em um intervalo muito curto, a Carmed deixou de ser apenas mais um produto no portfólio da Grupo Cimed para se tornar um fenômeno. 


  • Collabs que viralizam

  • hashtags com bilhões de visualizações

  • consumidores procurando sabores específicos

  • lançamentos tratados como eventos 

  • e produtos que rapidamente desaparecem das prateleiras.


Mas reduzir esse caso a uma história de marketing viral seria uma simplificação perigosa. Por trás desse movimento existe uma decisão estratégica muito clara: deslocar a marca do território farmacêutico para o território da cultura pop.


Quando isso acontece, a natureza da competição muda completamente. A Carmed deixa de disputar apenas eficácia, preço ou presença na gôndola da farmácia e passa a disputar atenção, repertório cultural e presença nas conversas cotidianas das pessoas.


É justamente nesse ponto que a análise pela lente do Gap da Coerência se torna interessante.

Quando uma marca cresce apoiada em grande exposição digital, surge uma pergunta inevitável: estamos diante de um caso de comunicação muito eficiente ou de uma estratégia de marca estruturalmente consistente?


Para responder isso, vale observar três movimentos que estruturam o caso Carmed: o branding agressivo, a estratégia nas plataformas sociais e o papel público da liderança da empresa.


Branding agressivo como estratégia de categoria


O primeiro movimento que chama atenção é o nível de exposição da marca. 

A Carmed adotou uma estética e uma linguagem muito diferentes daquelas tradicionalmente associadas ao universo farmacêutico. Cores vibrantes, collabs com marcas da cultura pop, sabores inesperados e uma comunicação que flerta abertamente com o universo do entretenimento.


À primeira vista, pode parecer apenas uma estratégia de marketing ousada.

Mas, quando observamos a trajetória da Cimed, esse posicionamento faz sentido.

A companhia vem tentando, há alguns anos, ampliar sua presença para além do território tradicional de medicamentos e suplementos. O objetivo declarado da empresa é se tornar uma grande companhia de consumo, com marcas capazes de competir no cotidiano do consumidor.


Nesse contexto, Carmed cumpre um papel estratégico importante: ela funciona como ponte entre o universo farmacêutico e o universo do consumo cultural.


As collabs com marcas como Fini, Hello Kitty e outros parceiros não são apenas exercícios criativos. Elas ajudam a deslocar o significado do produto. O hidratante labial deixa de ser um item de farmácia e passa a ser um objeto de coleção, presente e expressão de estilo.

Esse deslocamento simbólico é fundamental para entender o crescimento da marca.

Quando o produto deixa de ser apenas funcional, o comportamento de compra muda. O consumidor não compra apenas quando precisa. Ele compra porque quer experimentar, colecionar, comentar ou participar de uma conversa.

O TikTok como motor de desejo


Quando uma marca explode nas redes, a pergunta não é “como viralizou?”. É “o que sustenta isso?”

O segundo movimento que sustenta o crescimento da Carmed está na forma como a marca utilizou as plataformas sociais.


O TikTok não foi apenas um canal de mídia para a empresa. Ele se tornou um ambiente de formação de desejo.


Produtos pensados para gerar curiosidade visual, embalagens chamativas, sabores inesperados e collabs culturalmente reconhecíveis criaram o tipo de conteúdo que naturalmente circula em vídeos curtos, unboxings, reviews e desafios.


Isso produziu um comportamento coletivo interessante.


Consumidores começaram a compartilhar descobertas, comentar novos lançamentos, mostrar coleções e até registrar a busca pelos produtos nas farmácias. Em pouco tempo, o hidratante labial deixou de ser apenas um item utilitário e passou a funcionar como peça de conversa social.

Essa dinâmica revela um ponto importante sobre marcas na era das plataformas.


Hoje, não basta aparecer no feed. O produto precisa ser concebido de forma que as pessoas queiram falar sobre ele.


Quando isso acontece, a comunicação deixa de depender exclusivamente de investimento em mídia. O próprio comportamento dos consumidores passa a sustentar a circulação da marca.


Quando o dono da marca vira mídia


O terceiro elemento relevante neste caso é o papel público da liderança da empresa. Querer um sucesso como o da Carmed para o seu produto é fácil, mas será que você está disposto a se expor como João Adibe e a família têm feito? 


Diferentemente de muitas organizações, a Cimed não manteve seus executivos nos bastidores da comunicação. João Adibe, CEO da companhia, por exemplo, tornou-se uma presença constante nas redes sociais, comentando decisões estratégicas, mostrando bastidores da empresa e participando ativamente da construção da narrativa da marca.


Esse movimento tem efeitos importantes.


Quando a liderança assume protagonismo público, a marca ganha uma camada adicional de credibilidade e velocidade de comunicação. Decisões estratégicas deixam de ser percebidas apenas como campanhas publicitárias e passam a ser acompanhadas como parte da história da empresa.


Ao mesmo tempo, esse modelo também cria um tipo específico de risco.

Quanto mais a marca se associa à figura de seus líderes, maior a necessidade de garantir que a cultura organizacional e a estrutura do negócio sustentem essa exposição pública.


Caso contrário, a narrativa pode se tornar maior do que a realidade operacional da empresa.

No caso da Cimed, até o momento, os resultados de crescimento e expansão indicam que existe sustentação estrutural por trás da visibilidade.


O que o Gap da Coerência revela sobre a Cimed


O ponto mais relevante desse caso não está apenas na Carmed. Está no que ela revela sobre a Cimed.


Durante anos, a empresa construiu escala, distribuição e portfólio. Cresceu, ganhou presença, ampliou operação. Mas não ocupava, na mesma proporção, um espaço claro no imaginário do consumidor. Marcas podem ser enormes e ainda assim invisíveis culturalmente.

Mas o mais interessante não é o hype, é a estratégia por trás dele.


E quando você entende isso, percebe que a Carmed mudou completamente a forma de competir nesse mercado.


A Cimed era grande. Mas não era percebida dessa mesma maneira pelo grande público.

Esse tipo de desalinhamento não é incomum em empresas que crescem apoiadas principalmente em eficiência operacional. E, sobretudo, não é um desalinhamento que se resolve com comunicação.


Ele exige reposicionamento. Mas, principalmente, exige coerência entre aquilo que a empresa é e aquilo que ela decide fazer.


É nesse ponto que a Carmed precisa ser bem interpretada.


Ela não representa, isoladamente, o reposicionamento da companhia. Ela é uma das expressões mais visíveis de um movimento maior, que combina decisões estratégicas, novas frentes de marca e um reposicionamento mais ativo da própria liderança.


A Carmed funciona como um campo de experimentação e, ao mesmo tempo, como uma vitrine.

É por meio dela que a empresa testa uma nova linguagem, ocupa territórios que antes não acessava, acelera sua presença nas plataformas... Mas ela não atua sozinha.


O protagonismo de executivos, a abertura da companhia nas redes, o lançamento de novas marcas e a mudança na forma de se comunicar indicam que existe um redesenho mais amplo em curso.


Quando olhamos por esse ângulo, a correlação se torna mais precisa: a Carmed não explica apenas o crescimento de uma categoria. ela ajuda a revelar a tentativa da Cimed de alinhar aquilo que já construiu internamente com aquilo que o mercado finalmente começa a perceber.

É exatamente aqui que o Gap da Coerência começa a se reduzir.

Porque coerência de marca é resultado do alinhamento entre três dimensões: liderança, cultura e marca.

Quando a liderança decide avançar para novos territórios, a cultura precisa sustentar esse movimento — e a marca passa a refletir essa transformação.

Se esse alinhamento não existe, a comunicação acelera uma percepção que a estrutura não sustenta. 


Se ele existe, a percepção apenas torna visível aquilo que já é real.


O que a Cimed começa a fazer é um ajuste de proporção.


Proporção entre o tamanho da operação e a sua presença simbólica. Entre a ambição estratégica e a forma como ela se apresenta. Entre aquilo que construiu ao longo dos anos e aquilo que o mercado reconhece.


A Carmed cumpre um papel específico dentro desse processo: ela não apenas gera receita. ela acelera a visibilidade de um movimento que já estava em curso. Ela atua como um amplificador.

E esse é um ponto importante: crescimento operacional e construção de marca não são a mesma coisa.


Um pode existir sem o outro, mas, quando estão desalinhados, o valor percebido sempre fica aquém do valor real. ACimed está aproximando essas duas dimensões.


E, quando isso acontece, a marca deixa de precisar se explicar. Ela passa a ser compreendida.

Se essa análise for aplicada a qualquer outra empresa, a pergunta deixa de ser apenas sobre crescimento. Ela passa a ser sobre coerência.


O quanto daquilo que foi construído internamente já é reconhecido externamente?

E, se ainda existir distância, quais movimentos — de produto, liderança ou posicionamento — são capazes de reduzir esse GAP de forma estrutural, e não apenas no discurso?

28 de maio de 2026

Como um hidratante labial virou objeto de desejo

O sucesso da Carmed mostra como relevância cultural pode transformar produtos em fenômenos.

Por:

Marcela Rezende

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