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Recentemente, quando a edição impressa da revista Capricho voltou ao mercado e os icônicos palitos premiados da Kibon foram relançados, não foi apenas um resgate de produtos outrora tão desejados. Foi um lembrete de que a nostalgia é uma ferramenta de marketing incrivelmente poderosa. Apostar em sentimentos nostálgicos como estratégia de marca é um convite para revisitar memórias, reconectar histórias e, mais importante, reafirmar um valor essencial em tempos de hiperconexão: a busca por significado.


As páginas da Capricho, publicadas pela última vez 10 anos atrás, sempre foram uma febre entre adolescentes, trazendo tendências, dicas e sonhos impressos em papel. Naquele tempo, a conexão era mais lenta, e, logo, a relação com o conteúdo era mais íntima, quase ritualística. Agora, na era digital, em que tudo é imediato, o relançamento do formato impresso resgata algo precioso: desacelerar e se reconectar com o que nos emociona.


Da mesma forma, após mais de 20 anos, os famosos palitos premiados da Kibon , que foram um sucesso nos anos 1990, foram resgatados em 2025 para a campanha de verão da marca. O objetivo da Kibon é justamente utilizar a nostalgia para aprofundar a conexão com os consumidores retomando uma campanha que marcou milhares de brasileiros, como contou Camila Conti , Head de Marketing de Sorvetes na Unilever Brasil:

Voltamos à origem para falar de nostalgia, de memória, de histórias, celebrando a cultura brasileira de uma maneira muito simples. Nós ouvimos um chamado de várias gerações de consumidores que tinham muita conexão com a campanha do palito premiado.

Outra marca que também está apostando no resgate a memória afetiva é a Nestlé , que recentemente relançou o clássico chocolate Surpresa. Grande sucesso nas décadas de 1980 e 1990, o chocolate agora ganhou um toque de tecnologia substituindo os tradicionais cards físicos que o acompanhavam por cards digitais que podem ser acessados por meio de um QR Code presente na embalagem, oferecendo uma experiência de realidade aumentada. O foco, segundo a marca, é se conectar com Millennials e a Geração Z, aliando nostalgia à inovação.

Mas por que as marcas estão buscando inovar resgatando o passado?


A força da nostalgia

Pode parecer simples: relembrar momentos felizes do passado nos faz sentir bem. Mas nesse cenário há muito mais em jogo! 


Estudos de psicologia mostram que a nostalgia aumenta a sensação de bem-estar e impulsiona o otimismo, proporcionando uma sensação de conforto e segurança. Ou seja, é muito mais do que apenas recordar uma lembrança agradável. Em um mundo onde a hiperconectividade e as mudanças rápidas são constantes, evocar emoções do passado pode criar conexões poderosas entre marcas e consumidores.


Pesquisas apontam que a nostalgia pode lembrar emoções positivas, aumentando o engajamento e a fidelidade à marca. De acordo com um estudo no Journal of Consumer Research, a nostalgia pode deixar as pessoas mais dispostas a gastar dinheiro, pois aumenta a conexão social e combate a solidão. 

Os consumidores estão dispostos a pagar até 15% a mais por produtos que trazem sentimentos nostálgicos. Para as empresas, isso significa que uma campanha estrategicamente nostálgica pode transformar memórias em receita.

Além disso, anúncios que usam nostalgia também são mais propensos a se tornarem virais. Segundo dados da Kantar, anúncios com elementos nostálgicos têm um aumento de +15 pontos em prazer e de +9 pontos em conexão emocional, e ainda têm uma probabilidade +13 pontos maior de viralizarem em comparação com anúncios sem nostalgia.


Mas, assim como qualquer estratégia de marketing, a chave para acertar é utilizar a nostalgia mantendo-se fiel aos valores e ao posicionamento da marca.


E como as marcas podem aplicar esse gatilho emocional de maneira estratégica?


Incorporar a nostalgia em estratégias de marketing não é sobre viver no passado; é sobre criar uma ponte para o presente. Ao entender os dados e criar conexões genuínas, as marcas podem aproveitar o poder da nostalgia para envolver e expandir sua base de clientes.


Tanto o retorno da edição impressa da Capricho quanto dos palitos premiados da Kibon e do chocolate Surpresa da Nestlé não foram apenas um aceno para a audiência antiga. Foram um movimento bem calculado para gerar engajamento em um momento em que as experiências tangíveis e autênticas estão em alta, em um contraponto ao excesso de conteúdo digital.


Essa tendência de "revival" vem influenciando a moda, a música e o entretenimento. A Prada Group e a Diesel , por exemplo, resgataram peças clássicas em suas coleções recentes com foco em conquistar um público que busca referências afetivas em sua forma de se expressar.


Outras marcas como a Coca-Cola FEMSA e a Nintendo também alavancam com sucesso a nostalgia. Os caminhões de Natal e os ursos polares da Coca-Cola e os reboots de jogos clássicos da Nintendo exploram a memória afetiva, criando uma ponte emocional entre o passado e o presente. 


As marcas podem surfar nessa tendência como um diferencial competitivo, apostando em algumas estratégias: 


  • Resgate de produtos icônicos: trazer de volta um produto amado pelo público, adaptando-o às novas demandas do mercado, pode fortalecer a identidade da marca e gerar buzz espontâneo.



  • Storytelling emocional: criar campanhas que evocam emoções autênticas ligadas a momentos especiais do passado para aumentar o engajamento e a fidelidade dos consumidores.



  • Interação entre gerações: posicionar um produto nostálgico como um ponto de encontro entre gerações apoia a expansão da audiência e cria um novo ciclo de consumo.



  • Parcerias estratégicas: colaborações entre marcas podem amplificar o impacto da nostalgia, como a adidas fez ao relançar tênis clássicos em parceria com designers contemporâneos.



  • Edições limitadas: relançar produtos nostálgicos em edição limitada gera escassez e desejo, impulsionando as vendas e a percepção de exclusividade.


Nostalgia sim, mas com inovação


Resgatar elementos nostálgicos, portanto, não significa simplesmente repetir o passado, mas sim reinterpretá-lo de forma estratégica para o cenário atual - e futuro. A Globo , ao celebrar seus 100 anos, é um exemplo disso: mesclando o legado da televisão aberta com um ecossistema digital robusto, a empresa reforça sua presença em todas as plataformas, mantendo-se atual sem perder sua identidade histórica.


Com a evolução tecnológica, que agora dá um salto com a IA generativa, nos levando mais rápido para o futuro, significa que as marcas terão que inovar cada vez mais para engajar e crescer, tendo a conexão emocional como destaque. Vejo na capacidade de equilibrar essa combinação entre nostalgia e inovação uma oportunidade para as marcas encontrarem novas maneiras de personalizar e se conectar em meio a um cenário de rápidas mudanças no comportamento de consumo.


A Capricho nos lembra que as pessoas ainda valorizam o tangível, mesmo em uma sociedade hiperconectada. A Globo reforça que ter uma abordagem multiplataforma não é uma escolha, mas uma necessidade para quem quer pautar o futuro.


Isso demonstra que, mesmo em um cenário onde o digital domina, ainda há espaço para experiências que convidam à pausa, à reflexão e, principalmente, à conexão emocional. É entender que, no marketing, não estamos apenas entregando campanhas e produtos, mas ajudando as pessoas a se reconectarem com o que realmente importa: as emoções.

25 de maio de 2026

Marketing nostálgico: quando o passado vira inovação

Algumas marcas crescem ao transformar memória afetiva em relevância para novas gerações.

Por:

Marcela Rezende

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