Em 2019, depois de 10 anos fora do Brasil, voltei e encontrei um país em transformação — e um mercado em ebulição. O avanço do empreendedorismo e a ascensão da Nova Economia deixavam evidente: o digital, a agilidade e a inovação não eram mais diferenciais, mas pré-requisitos.
Diante desse novo cenário, compreendi algo essencial: o que me trouxe até ali — uma trajetória sólida em grandes multinacionais — não seria suficiente para me levar pelos próximos 20 anos. E este não foi um diagnóstico apenas de carreira.
Depois de anos atuando em empresas tradicionais, decidi me aproximar de negócios nascidos no digital — as startups. Queria entender como elas cresciam tão rápido, com estruturas enxutas, mas muita clareza de foco, propósito e entrega. Foi um salto para fora da zona de conforto e um lembrete poderoso: para liderar o novo, é preciso se permitir ser aprendiz de novo.

A reinvenção do líder antecede a reinvenç ão do negócio
Essa busca não é só minha. A nova edição da pesquisa da PwC com mais de 4.700 CEOs ao redor do mundo mostra que quase metade deles não acredita que suas empresas sobreviverão mais de 10 anos se continuarem no mesmo rumo. No Brasil, 45% compartilham dessa visão. O sinal está claro: a reinvenção não é um desejo. É uma exigência.
Negócios — assim como pessoas — só se mantêm relevantes quando aceitam que seus ciclos precisam ser atualizados. Modelos antigos de sucesso não garantem a sobrevivência. E assim como líderes que não se reinventam tornam-se irrelevantes, empresas que resistem à mudança perdem conexão com os seus mercados.
O dado que mais me chamou atenção: apenas 8% da receita média das empresas brasileiras nos últimos cinco anos veio de novos negócios. Isso revela uma desconexão entre o discurso de inovação e a prática. Reinvenção exige decisões difíceis e coragem para construir o novo.
Isso nos obriga a perguntar: se já sabemos que o contexto mudou, por que nossas agendas continuam ancoradas nas mesmas prioridades?
Inovação não nasce da operação — nasce da liderança
A transformação das empresas exige muito mais do que uma nova tecnologia ou uma reestruturação de processos. Ela começa quando a liderança se permite um novo repertório mental.
Essa é a virada: a reinvenção organizacional é sempre consequência da reinvenção dos seus líderes. Não existe transformação coletiva sem mudança individual. E se os líderes não derem protagonismo à inovação, ninguém dará.
O problema é que fomos condicionados a operar. A responder ao urgente, entregar metas, reduzir riscos. Mas inovação não opera seguindo apenas o modo eficiência. Ela vive no modo descoberta. Ela exige foco no que ainda não existe. Tempo para o que ainda não está pronto. Coragem para errar e testar — de novo e de novo.
Liderar, neste novo ciclo, é ter coragem para enfrentar perguntas incômodas:
O que estamos deixando de construir por estarmos ocupados demais com o que sempre funcionou?
Que oportunidades estamos ignorando por medo de abrir mão do previsível?
Que espaço existe — de verdade — na nossa rotina para o que é novo, incerto, mas necessário?
Inovação não nasce onde tudo já está definido. Ela precisa de espaço para respirar. De líderes que protejam o futuro do excesso de passado.
Porque o que nos trouxe até aqui foi disciplina, consistência e execução. Mas o que nos levará adiante é a capacidade de imaginar o inédito, experimentar antes dos outros e agir com coragem antes que seja confortável.
Perguntar-se o que levará você e seu negócio para os próximos 10, 20, 30 anos não é um exercício que você faz de vez em quando. Deve ser uma inquietação constante.

27 de maio de 2026
O que te trouxe até aqui pode não te levar adiante
O futuro dos negócios depende da capacidade dos líderes de se reinventarem antes que o mercado os obrigue.
Por:
Marcela Rezende
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