Acredito que existe, no mundo atual, em que tudo muda tão rapidamente e perde valor tão depressa, uma procura crescente por coisas que não sigam esse caminho. — Wilhelm Schmid, CEO da A. Lange & Söhne
Essa afirmação de Wilhelm Schmid CEO da A. Lange & Söhne , para mim resume bem o que tem feito algumas marcas se destacarem tanto nos últimos meses. Embora a conversa tivesse passado por tópicos como carros e relógios, na essência Schmid falou sobre construção de marca, e o fez isso deixando claro algo que eu sempre defendo: marcas fortes nascem de dentro para fora.
Vistos de fora, nossos relógios parecem muito funcionais, elegantes, estruturados, quase como a Bauhaus alemã, bem diretos. Mas, ao se aproximar, você perceberá que tudo isso é fruto de paixão, de decoração, de ênfase, do amor pelos detalhes e de pessoas dedicadas a construir os melhores relógios do mundo. Não que consigamos isso, mas é para isso que elas trabalham, é o que elas buscam o tempo todo. — Wilhelm Schmid, CEO da A. Lange & Söhne
Detalhes, paixão e a valorização do saber-fazer têm sido pilares estratégicos para marcas que se preocupam em preservar uma assinatura autêntica e que, consequentemente, refletem o alto valor percebido.
Muitas marcas intensificaram a centralidade do saber-fazer humano, do domínio técnico e da manufatura como núcleo de diferenciação. nos últimos meses. Não como reação circunstancial ao avanço da tecnologia, mas como continuidade coerente do posicionamento construído
Numa entrevista , Axel Dumas, CEO da Hermès , afirmou: “nos preocupamos com a aparência das coisas anos depois, mesmo que ninguém as veja na época.” Na conversa, ele afirmava que, para se manter relevante nestes tempos desafiadores, o elemento mais importante é :
permanecer fiel a nós mesmos, à nossa ética, aos nossos valores e aos nossos clientes. É importante manter a integridade da Hermès, para que, quando a sétima geração assumir o comando, ela se orgulhe disso. — Axel Dumas, CEO Hermès
IA: oportunidade para gerar ou retrair valor?
Em matéria da Forbes, há uma provocação bastante relevante: "Marcas de luxo criam produtos que refletem os mais altos níveis da criatividade humana. Elas prosperam no mercado graças à autenticidade e às conexões interpessoais que constroem confiança. Em vez de aprimorar essas qualidades, o uso irresponsável da Inteligência Artificial Geral (IAG) pode ameaçá-las."
Estudos recentes, como o relatório Global Powers of Luxury 2026, da Deloitte , mostram que o maior potencial de geração de valor da IA está distribuído entre inovação de produto, marketing, engajamento e personalização, otimização da cadeia e eficiência operacional.

Mas o gráfico, por si só, não responde à pergunta mais importante: como transformar potencial em valor duradouro. Ele mostra onde a tecnologia pode ser aplicada, não como decidir quando, por que e até onde usá-la. E é justamente nesse ponto que as marcas mais consistentes se diferenciam.
Ao ver esses líderes de marcas tão longevas falando sobre valores, manter-se fiel ao propósito do negócio e proteger o valor construído ao longo do tempo, eles estão reforçando posicionamento. Perceba que nessas declarações, escala e velocidade - que tendem a ser os atributos mais defendidos ao usarmos tecnologia - não aparecem no discurso.
Think different em tempos de IA
Embora não seja do setor de luxo, a campanha de Natal da Apple , “A Critter Carol”, também reflete esse momento em que criatividade humana parece entrar cada vez mais como fator competitivo e estratégia para diferenciação.
Em vez de demonstrar capacidades técnicas avançadas, a marca optou por uma narrativa construída com fantoches feitos à mão, madeira, tecido e tipografia artesanal. A tecnologia estava presente, mas não ocupava o centro da cena.
O filme foi todo captado por um iPhone, mas a produção foi principalmente artesanal. Uma oposição clara a outras indústrias que têm promovido seus lançamentos usando ao máximo as possibilidades com IA.
Essa decisão da Apple se assemelha ao posicionamento de marcas como Hermès e A. Lange & Söhne não por causa dos produtos, categorias ou mesmo nível de preços que praticam. O que une essas marcas é a clareza sobre o que precisa ser preservado antes de qualquer escolha operacional.
“A Critter Carol” não é um manifesto contra a IA, nem uma defesa romântica do artesanal. É uma afirmação de identidade. A Apple mostra que domina a tecnologia, mas escolhe usá-la sem colocá-la no centro da narrativa. A inovação existe, mas não sequestra o sentido.
O mesmo acontece com Hermès e A. Lange & Söhne. O saber-fazer humano, o tempo longo, o detalhe invisível e a obsessão pela qualidade não são respostas ao avanço da tecnologia. São expressões consistentes de uma cultura que já existia antes dela. Quando esses líderes falam de valores, ética e continuidade, estão falando de limites. Do que não será negociado, mesmo quando novas ferramentas tornam atalhos possíveis.
O debate não é sobre adotar ou não adotar tecnologia, mas sobre o que orienta essa escolha. O gráfico da Deloitte aponta corretamente onde a IA pode gerar valor econômico, mas transformar esse potencial em valor de marca exige algo que o gráfico não mostra: um eixo interno de decisão.
Esse eixo interno, para mim, nasce da Pirâmide de Construção de Cultura e Marca.

Marcas que permanecem relevantes são aquelas cuja cultura e o posicionamento são nítidos o suficiente para funcionar como filtro de decisão. É essa base que define onde a tecnologia entra, onde ela não entra e qual papel ela deve cumprir. E a marca percebida pelo mercado é, no fim, o acúmulo coerente dessas decisões ao longo do tempo.
Ao olhar para Apple, Hermès e A. Lange & Söhne, não enxergo uma defesa do passado, mas, sim, uma defesa de coerência. Eles reconhecem que têm um ativo muito valioso nas mãos e o produto precisa constantemente refletir a narrativa que por tanto tempo foi cultivada.
Produtos e tecnologias são facilmente copiados, marca e cultura, não.
"Marcela, quer dizer que marcas de alto valor não devem usar IA e outras tecnologias?", a conversa não é sobre isso. A reflexão que realmente importa é outra, e ela vale para qualquer negócio, independentemente do porte, do setor ou do nível de maturidade.
Quais critérios estão orientando as decisões que você está tomando agora?
O que, no seu negócio, é inegociável mesmo quando a tecnologia oferece atalhos mais rápidos e baratos?
Se alguém olhar para as escolhas que você está fazendo hoje, conseguirá entender qual história você quer que a sua marca conte daqui a cinco ou dez anos?
Você só precisa dessas respostas para identificar quais são os pontos-chave em que o mais estratégico é ser otimizado e escalado e em quais o human made é o seu maior aliado.
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27 de maio de 2026
O que gera valor duradouro em mercados acelerados
Em um cenário de mudanças constantes, valor duradouro nasce da consistência estratégica.
Por:
Marcela Rezende
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